Essas são
lembranças de uma história
Que começa
sem origem, sem raiz conhecida, sem graça.
Lembranças
de verdades cruéis e doces mentiras
Nascidas
na mente de uma adolescente iludida,
E que
agora povoam a mente e as lembranças de seu primeiro fruto.
Possivelmente
1968, esse é o primeiro resquício de suas lembranças.
Daí em
diante tantas coisas e pessoas passaram pela sua vida,
Tão pouco significativas,
mas emblemáticas,
Como uma
vizinha na janela seminua e sem seios,
O sangue,
a tão sonhada bola de capotão, e a festa no Açúcar União.
Aquele que
acreditava ser seu pai saía com uma bicicleta
Para
vender uma caixa de doces caseiros.
Então a
mudança para um subúrbio qualquer de sua terra natal,
A grande
metrópole que ainda não morava nas suas lembranças.
Aqueles
dias ficaram marcados para sempre.
A
periferia, a estação, a primeira escola, a professora, os colegas
E as
caminhadas pela linha férrea, a primeira pipa,
A primeira
experiência com a morte, a primeira surra.
Aqueles
primeiros contatos com a realidade o marcaram para sempre.
O beco, a
mata, a valeta aberta enfrentando a casa,
A estação
de trem e as luzes frias dos vaga-lumes sobrevoando sua infância
E iluminando
sua insignificância.
Nos
próximos anos viveria uma vida nômade,
Onde o
tempo correria como correnteza de rio
Trazendo e
levando embora coisas e pessoas que nunca queria ter perdido.
Um
cajueiro, um tapume sustentando um trilho da Fepasa,
Um bairro com
um nome que refletia o estado de espírito na manhã de um ébrio
Um
estelionato escolar, uma lagoa, estórias de uma serpente,
Uma caixa
de recortes antigos de celebridades do rádio e tv,
Um casebre
de barro, onde ele achava ser feliz.
A praça da
igreja, um filme religioso,
As mangueiras
e as noites de fogueira no cortiço e um acidente.
Deus
sempre foi na sua vida uma coisa tão vaga e distante que não acreditava em
nada,
Somente
nos próprios sentidos, instintos daquela adolescência disforme.
Não havia
noção no que, por que ou em quem acreditar.
O retorno
para onde nasceram suas lembranças.
Vida nova,
nova escola, novos amigos e coisas, combustíveis para novas sensações.
A
descoberta da poesia e dos primeiros acordes.
Paixões e ilusões, de sonhos e decepções.
As unhas
maternas deixaram cicatrizes na alma,
As surras
do lar doeram mais que brigas de rua,
Mais que
as reponsabilidades precoces.
A
descoberta de si. O fim da inocência.
O primeiro
cigarro, o primeiro copo, a primeira reação ao desmando,
A rebeldia
e as drogas, os amigos e os amores, as alucinantes viagens da mente,
A poesia e
um violão agora fariam parte do seu cotidiano fútil.
Ele nunca
mais seria o mesmo.
Ainda
assim caminhou com suas dúvidas.
Espectros
do passado se tornaram fantasmas e monstros
Que se
escondem no porão de sua mente
E lhe
assombram a luz do presente.
Mas o sol
e um amor moreno de sorriso torto, venceram as sombras em sua vida.
A sua guerra
ainda persiste.
Resquícios
e sequelas ainda tentam controlar sua mente, corpo e coração.
O espelho,
testemunha do tempo distorce às vezes sua realidade,
Mas sua
mente entorpecida.
Diz que o
fim não está perto,
Passou
mais rápido que o ponteiro do seu relógio barato.
Agora para
ele são só lembranças
Ora
tristes, ora saudosas desses seus vívidos 50 anos
Menos 3
que lhe escaparam da memória
E tudo
revivido em 5 minutos.
O que vem
pela frente ele não sabe.
Vai passar
incógnito como alguém comum,
Esperando
que algum dia a vida lhe dê uma nova chance,
Um novo
recomeço....

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