Leh Rodrigues

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Os Sinos Do Meio-Dia - Hudson Alexandre

 


Os sinos dobram ao meio-dia,

O som vem da catedral das luzes,

Que nunca brilham essa escuridão injusta.

Pequenas e tímidas flores vencem o asfalto,

Que de assalto vence minha indiferença.

Vitrines refletem os meus olhos,

E a luz dos meus olhos refletem a verdade no meu corpo.

Minha mente é fria, mas minha alma queima como fogo.

Vejo pelos espelhos os meus passos cansados de tanto pensar,

De tanto passar por lugares e olhos alheios aos meus,

Quero ter poder sobre meus passos,

Ter força para vencer a mim mesmo.

Os sinos alertam-me para uma novo tempo,

Um momento a qual não pertenço,

Onde os sinais são apenas de lembranças de um tempo de a muito.

Assim como aquelas pequenas flores vencem o piche quente,

Eu sigo nesse calor de meio-dia.

Os sinos da catedral são avisos de que o meu dia está a caminho da noite.

Sinto a sombra das pessoas,

A me olhar com a indiferença de um cão que olha para o nada.

Criaturas saem da galeria a procura de comida,

Em busca da vida,

Impõem sua asquerosa existência aos transeuntes que torcem o nariz,

Como se o mundo subterrâneo não fosse presente em suas vidas fúteis,

Em suas mentes inúteis.

Agua suja desce o meio-fio levando a subsistência aos seres abjetos do esgoto.

Os sinos tocam e me traz de volta o sentido.

Gosto da minha imagem refletida nas vitrines das lojas.

A vaidade me sorri acariciando meu ego machucado.

Vejo olhos famintos de lobos velhos mirando presas incautas e desatentas.

Carne fresca a ser consumidas com os dentes da perversidade.

Crianças caminham de mãos dadas com a arrogância,

Sendo conduzidas ao reduto do tempo perdido.

Na praça o dorso opaco estático da proeminência local,

Enfrenta um obelisco,

Pouso de aves vadias e perdidas no aflorado instinto de busca pela sobrevivência.

Almas que migram da ilusão para o real,

Que mutilam a moral em nome da subsistência.

Comem no chão as migalhas da dignidade de alguém,

Que passou despreocupadamente pela praça da agonia,

Tão fria e voraz quanto um beco escuro e abandonado.

 

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