Leh Rodrigues

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

50 menos 3 em 5 - Hudson Alexandre

 


Essas são lembranças de uma história

Que começa sem origem, sem raiz conhecida, sem graça.

Lembranças de verdades cruéis e doces mentiras

Nascidas na mente de uma adolescente iludida,

E que agora povoam a mente e as lembranças de seu primeiro fruto.

Possivelmente 1968, esse é o primeiro resquício de suas lembranças.

Daí em diante tantas coisas e pessoas passaram pela sua vida,

Tão pouco significativas, mas emblemáticas,

Como uma vizinha na janela seminua e sem seios,

O sangue, a tão sonhada bola de capotão, e a festa no Açúcar União.

Aquele que acreditava ser seu pai saía com uma bicicleta

Para vender uma caixa de doces caseiros.

Então a mudança para um subúrbio qualquer de sua terra natal,

A grande metrópole que ainda não morava nas suas lembranças.

Aqueles dias ficaram marcados para sempre.

A periferia, a estação, a primeira escola, a professora, os colegas

E as caminhadas pela linha férrea, a primeira pipa,

A primeira experiência com a morte, a primeira surra.

Aqueles primeiros contatos com a realidade o marcaram para sempre.

O beco, a mata, a valeta aberta enfrentando a casa,

A estação de trem e as luzes frias dos vaga-lumes sobrevoando sua infância

E iluminando sua insignificância.

Nos próximos anos viveria uma vida nômade,

Onde o tempo correria como correnteza de rio

Trazendo e levando embora coisas e pessoas que nunca queria ter perdido.

Um cajueiro, um tapume sustentando um trilho da Fepasa,

Um bairro com um nome que refletia o estado de espírito na manhã de um ébrio

Um estelionato escolar, uma lagoa, estórias de uma serpente,

Uma caixa de recortes antigos de celebridades do rádio e tv,

Um casebre de barro, onde ele achava ser feliz.

A praça da igreja, um filme religioso,

As mangueiras e as noites de fogueira no cortiço e um acidente.

Deus sempre foi na sua vida uma coisa tão vaga e distante que não acreditava em nada,

Somente nos próprios sentidos, instintos daquela adolescência disforme.

Não havia noção no que, por que ou em quem acreditar. 

O retorno para onde nasceram suas lembranças.

Vida nova, nova escola, novos amigos e coisas, combustíveis para novas sensações.

A descoberta da poesia e dos primeiros acordes.

Paixões e ilusões, de sonhos e decepções.

As unhas maternas deixaram cicatrizes na alma,

As surras do lar doeram mais que brigas de rua,

Mais que as reponsabilidades precoces.

A descoberta de si. O fim da inocência.

O primeiro cigarro, o primeiro copo, a primeira reação ao desmando,

A rebeldia e as drogas, os amigos e os amores, as alucinantes viagens da mente, 

A poesia e um violão agora fariam parte do seu cotidiano fútil.

Ele nunca mais seria o mesmo.

Ainda assim caminhou com suas dúvidas.

Espectros do passado se tornaram fantasmas e monstros

Que se escondem no porão de sua mente

E lhe assombram a luz do presente.

Mas o sol e um amor moreno de sorriso torto, venceram as sombras em sua vida.

A sua guerra ainda persiste.

Resquícios e sequelas ainda tentam controlar sua mente, corpo e coração.

O espelho, testemunha do tempo distorce às vezes sua realidade,

Mas sua mente entorpecida.

Diz que o fim não está perto,

Passou mais rápido que o ponteiro do seu relógio barato.

Agora para ele são só lembranças

Ora tristes, ora saudosas desses seus vívidos 50 anos

Menos 3 que lhe escaparam da memória

E tudo revivido em 5 minutos.

O que vem pela frente ele não sabe.

Vai passar incógnito como alguém comum,

Esperando que algum dia a vida lhe dê uma nova chance,

Um novo recomeço....

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Duas Crianças - Hudson Alexandre

 





Hoje vi duas crianças.

Nunca tinham se visto, completamente estranhas,

Mas conversavam como se fossem íntimas.

Seus olhares se cruzavam

De modo tão humanamente inocentes.

 

As palavras trocadas eram doces e sem conceitos.

Então percebi o quanto estou distante das pessoas,

Vi naquela inocência,

O abismo entre eu e o resto do mundo.

 

Queria ser como as crianças,

Sem medo de olhar nos olhos,

Sem medo de ver o coração da pessoa ao meu lado.

Queria ser a pureza daqueles olhos de inocência,

Que não vê a maldade no sorriso das pessoas.

 

Queria ser o sorriso na face sofrida de alguém.

Vi naquelas crianças, o que não vejo ao olhar o espelho.

Minha indiferença mata o que há de bom em mim.

Eu não entendo esse ser,

Que se limita a ver a beleza humana

Existente naqueles que passam por mim,

 

Que não são recompensados pelo sorriso que oferecem.

O coração endurece

Com o que há de mais moderno em nossa existência.

Cria resistência ao amor,

 

Como se um olhar fosse doença,

Como se o sorriso fosse ofensivo,

Como se o toque fosse uma afronta,

Como se todo gesto gentil, fosse uma ameaça.

 

Queria ser aquele momento infantil,

Sem essa vil sensação de medo e frio na alma.

Queria ser um pouco daqueles minutos

Tão distantes de minha vida real,

De meu dia normal.

 

Elas estavam tão longe dessa normalidade torpe,

E eu queria continuar lá

Só assistindo aquele lindo momento,

Em que a vida ensina a viver....

Máscara - Hudson Alexandre






É lisonjeiro e dissimulado

Máscara de sorriso escancarado

Gosta de tapinha na costa

Com a hipocrisia vive abraçado

 

Por aí vive a parolar

Cheio de veneno, cheio de razão

Com polida e sublime convicção

Coloca o amigo no chão

 

A inveja o veste como um manto

Doce avidez em língua macia

Que no fundo provoca indigestos:

Dor, tristeza e azia

 

Sempre preocupado e bem disposto

Motivado ao amigo aconselhar

Interessado mesmo está  em derrubá-lo

Para avidamente ocupar o seu lugar

 

Atolam-se na displicência

Arrogam-se obstinando a demência

Alma indignamente exposta e explícita

Implícita, no espírito da indigência

 

No meio da grande tertúlia

Ele rulha e se mantém escondido

E confundido, é raptor vera-efígie

Camaleão furta cor, que finge

 

Um falso amigo é doença

Que quebra nossa resistência

Vivência da amargurada angústia

Sintoma de uma triste existência

  

Os Sinos Do Meio-Dia - Hudson Alexandre

 


Os sinos dobram ao meio-dia,

O som vem da catedral das luzes,

Que nunca brilham essa escuridão injusta.

Pequenas e tímidas flores vencem o asfalto,

Que de assalto vence minha indiferença.

Vitrines refletem os meus olhos,

E a luz dos meus olhos refletem a verdade no meu corpo.

Minha mente é fria, mas minha alma queima como fogo.

Vejo pelos espelhos os meus passos cansados de tanto pensar,

De tanto passar por lugares e olhos alheios aos meus,

Quero ter poder sobre meus passos,

Ter força para vencer a mim mesmo.

Os sinos alertam-me para uma novo tempo,

Um momento a qual não pertenço,

Onde os sinais são apenas de lembranças de um tempo de a muito.

Assim como aquelas pequenas flores vencem o piche quente,

Eu sigo nesse calor de meio-dia.

Os sinos da catedral são avisos de que o meu dia está a caminho da noite.

Sinto a sombra das pessoas,

A me olhar com a indiferença de um cão que olha para o nada.

Criaturas saem da galeria a procura de comida,

Em busca da vida,

Impõem sua asquerosa existência aos transeuntes que torcem o nariz,

Como se o mundo subterrâneo não fosse presente em suas vidas fúteis,

Em suas mentes inúteis.

Agua suja desce o meio-fio levando a subsistência aos seres abjetos do esgoto.

Os sinos tocam e me traz de volta o sentido.

Gosto da minha imagem refletida nas vitrines das lojas.

A vaidade me sorri acariciando meu ego machucado.

Vejo olhos famintos de lobos velhos mirando presas incautas e desatentas.

Carne fresca a ser consumidas com os dentes da perversidade.

Crianças caminham de mãos dadas com a arrogância,

Sendo conduzidas ao reduto do tempo perdido.

Na praça o dorso opaco estático da proeminência local,

Enfrenta um obelisco,

Pouso de aves vadias e perdidas no aflorado instinto de busca pela sobrevivência.

Almas que migram da ilusão para o real,

Que mutilam a moral em nome da subsistência.

Comem no chão as migalhas da dignidade de alguém,

Que passou despreocupadamente pela praça da agonia,

Tão fria e voraz quanto um beco escuro e abandonado.

 

Lua Rosa - Hudson Alexandre

 




Uma luz vem em minha direção.

É como uma vela bruxuleante de incerteza.

São oito da manhã, é fim de primavera,

A lua ainda impunha sua presença,

Com o tom rosado pelo toque da luz do sol.

Em meio a todo aquele azul,

Eu vi o amor resistindo, vindo do céu.

De repente uma nuvem, como um véu de algodão,

Impediu-me de participar da cena,

E eu fiquei com o olhar parado,

Vencido pela sombra daquela nuvem,

Enciumada do meu olhar admirado,

Para aquela lua diurna e tão soturna.

Era só um dia comum de outubro,

Era eu alguém comum,

Numa rua comum, numa praça qualquer.

Mas ela, a lua, era especial, imponente,

Não importava se era dia, se tinha sol,

Se havia luz ofuscando seu cristal.

Eu estava lá,

Testemunhando sua aparição singela e bela.

Parecia que somente eu a via,

E ela se exibia apenas para mim,

Alguém comum,

Numa rua comum, num dia qualquer,

Numa praça qualquer,

Como uma discreta mulher.

Eu, a vida e aquela lua rosa,

Era tudo o que importava naquele momento.

Até que a rua arrebatou de mim

Minha doce ilusão...

Nos Olhos De Uma Mulher - Hudson Alexandre

 



Nos olhos de uma mulher,

Há um sonho de desejo.

Há um fogo que queima,

Intenso como um beijo.


Neles irradiam a luz em que nasce

A ânsia de um amor vermelho.

Como duas crianças más

Que se veem no espelho.

 

Pode-se ver naquele brilho

Todas as cores do mundo

E cada estrela que brilha

Nos sonhos de um vagabundo.

 

É possível ver

Todo um universo sem igual.

Não se vê o mal

Embora ele more lá.

 

Nos olhos de uma mulher,

A beleza nasce sem coração

Na força que aperta o peito

De um poeta jogado no chão

 

É possível sentir o gosto do mel

Que se derrama em véu do favo.

Sobre um paladar parvo

Como um doce em papel

 

Pode-se ver o mar calmo

Tocando o alvo horizonte

Quando sonolento se vai o sol

Para seu lençol de águas viciantes

 

Nos olhos de uma mulher

Existe uma coisa de redenção

Onde medra o amor e a vida

Como um lago raso de ilusão.

 

Escusa lua fria e tão longe, distante

Un homme non ouvre son couer

Ali há um lago negro de sombras.

Diante dos olhos de uma mulher.

 






Vagalume - Hudson Alexandre

 


Um vagalume solitário veio me avisar

Na sua solidão a rodopiar ao som dos grilos e do vento

Um momento de breu e chuva fina, constante.

E eu desse tempo tão distante


Pus-me a afirmar: “presságio: bom ou mal”

Não sei explicar

Lembranças da minha infância

Já de mim, a uma grande distância, me fez recordar.

 

Sua luz fria

Timidamente iluminou o escuro 

E no obscuro do ontem

Um homem voltou como criança a sonhar

 

Passado e futuro se concentram no hoje

Como se hoje nunca fosse acabar

Ainda mais claro e luminoso pra mim

Foi o brilho quente do amor a me iluminar...

 

Luz de vagalume, natural

Como esse amor sem igual

Desse ser ao meu lado

Que me jurou amor infinito

 

Queria essa luz instintiva

Como sinal divino de esperança

Que se avança ao próximo degrau celestial

A quarta dimensão da nossa evolução espiritual

 

Essa luz mostra o caminho de ser feliz

Luz artificial mata com atropelo

E meu apelo é simples

Vejam e vivam sob a luz dos vagalumes