Leh Rodrigues

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

Vida Ligeira - Hudson Alexandre

 


Por tantas vezes

Eu tentei te falar

Só haverá amanhã

Quando de manhã o sol brilhar

 

Por isso não tenha pressa

Não faça promessas nem juras de amor

Apenas viva cada dia

Como se nesse dia não houvesse depois

 

Aprenda ao fim de seu dia

O que o sol tem a ensinar

Ele descansa nos montes

Além do horizonte dando vez ao luar

 

Tanta pressa que besteira

Faça as pazes com a segunda-feira

A vida corre e é ligeira

E vai passar de qualquer maneira

A Sombra E O silêncio




Quando o som

Ilumina nossas vidas

O sol entoa então

Sua canção mais antiga

 

Quando o sal

Tempera nossa palavra

A voz embarga

O coração quando fala

 

Sendo assim

A sombra e o silêncio

Traz alívio

Para um peito ferido

A Mente - Hudson Alexandre

 



Que mente é essa que guia por caminhos obscuros,

Como um cicerone de uma terra inóspita?

Que conduz por depressões remotas,

Escondidas em algum lugar desconhecido da razão?

Levando à profundidade das cavernas,

Por túneis e labirintos da natureza decaída,

Onde a luz não alcança e,

Onde o medo nunca se cansa de assombrar o coração néscio.

Das profundezas sopram ventos tempestuosos.

O odor da escuridão invade os sentidos como cheiro de morte.

Os becos infinitos dessa mente demente

São como os grilhões nos pés de um escravo que insiste na liberdade.

Há um louco que delira na sua sanidade discreta,

Na tolice de seu torpe frenesi.

A flor dessa profundeza traz à superfície

A sensação de um toque suave da libido.

Essa sensação que cobre com volúpia,

Uma sombra sensual de um dia escaldante.

Um turbilhão de palavras e imagens desordenadas,

Passam pela tela dessa mente como filme surrealista.

Nesse terreno de morbidez,

Nascem as expressões da alma que chamamos de poesia.

Palavras puras que nascem como flores campestres no aterro humano.

Que mente essa que não esboça um sonho bonito,

Que não faz entrar no paraíso,

No paraíso particular do insano,

Onde se possa ver luzes e cores sem alucinações....

 

A Chuva - Hudson Alexandre

 


E eu aqui

Com meus pensamentos a fugir

Escorrem como as enxurradas

Nessa rua nua

 

A chuva se precipita

De um céu de emoções

As poucas árvores gesticulam

Como se entendessem as expressões

Do meu rosto um tanto indisposto

 

Há muro

Que tapa a minha visão

Que me impede em vão

De ver o outro lado, o lado bom

 

O lixo desce pelas águas pluviais

São meus ais indo embora

Tão depressa que apressa a vinda

Do arco-íris

 

A chuva vai caindo devagar

Sobre meu corpo

As lágrimas escorrem

Pelos meus olhos

Fazem-me enxergar o que não via

 

Os anjos cantam canções

Aos quatro ventos do mundo

Aos ouvidos surdos

Só perece vã poesia

Espalhando melancolia

Pés Alados - Hudson Alexandre

 


Nessas ruas apáticas

Estão as marcas de cada passo

Iluminam os cantos escuros

De corações que perderam espaço

 

Seus pés alados velozes

Ferozes como gafanhotos famintos

Ultrapassam em força seus limites

Não se admite que alguém esteja dormindo

 

O fogo que sai de sua boca

Acalenta, dói, ilumina

Borbulha no seu coração

Um vulcão que as chamas disseminam

 

Nos becos de seu território

Faz-se notório cada passo

A face dura dos profetas

A fé mais dura que o aço

 

Não se importam com poeira

Da discórdia ou da falta de fé

Tiram das sandálias o pó de cada dia

No eco da profecia: ‘que lindos esses pés!’

 

Avançam sempre na frente

No espírito dos deuses

Na ordem de seus senhores

Estão dispostos a lutar

 

Cada passo à frente

É lugar-tenente dos primeiros

Lágrimas e sorrisos farão o futuro

Desse espírito pioneiro

 

A Busca - Hudson Alexandre

 


O homem busca tudo o que é distante,

Fora de seu alcance está o sonho,

Estão a vida e a existência nela contida

Fora do seu alcance estão as estrelas na alameda

O universo, os buracos-negros e Andrômeda


O homem busca, mas não alcança,

Se consola, sentado numa balança

Como criança, chora, soluça

E mesmo assim sem esperança

 

O seu tempo ludibria a existência

Busca a juventude e o vigor

Mas, sem eficiência

Com desespero ou conformismo

Conhece da morte a iminência

 

O homem busca seu futuro

Alcança os períodos posteriores

Ao sentir o gosto da chegada

É vencido pelas auroras superiores

 

O homem morre, mata, nasce e vive

Busca a evolução na revolução

E cresce em seu íntimo

A expressão do vil e vão

 

Busca a Deus, e dentro de si

Se perde na busca

Assim, torna-se o seu não encontrado deus

Julga, legisla e executa

A si mesmo e aos seus

 

Ele busca o que virá

Mas, o que virá? Ele não sabe

Ele senta, cruza os braços

E observa no horizonte seus traços

 

Os traços de sua personalidade

Idade, vaidade e os ventos do engano

E da verdade

E na sua busca ele sente

Da vida a crueldade

 

50 menos 3 em 5 - Hudson Alexandre

 


Essas são lembranças de uma história

Que começa sem origem, sem raiz conhecida, sem graça.

Lembranças de verdades cruéis e doces mentiras

Nascidas na mente de uma adolescente iludida,

E que agora povoam a mente e as lembranças de seu primeiro fruto.

Possivelmente 1968, esse é o primeiro resquício de suas lembranças.

Daí em diante tantas coisas e pessoas passaram pela sua vida,

Tão pouco significativas, mas emblemáticas,

Como uma vizinha na janela seminua e sem seios,

O sangue, a tão sonhada bola de capotão, e a festa no Açúcar União.

Aquele que acreditava ser seu pai saía com uma bicicleta

Para vender uma caixa de doces caseiros.

Então a mudança para um subúrbio qualquer de sua terra natal,

A grande metrópole que ainda não morava nas suas lembranças.

Aqueles dias ficaram marcados para sempre.

A periferia, a estação, a primeira escola, a professora, os colegas

E as caminhadas pela linha férrea, a primeira pipa,

A primeira experiência com a morte, a primeira surra.

Aqueles primeiros contatos com a realidade o marcaram para sempre.

O beco, a mata, a valeta aberta enfrentando a casa,

A estação de trem e as luzes frias dos vaga-lumes sobrevoando sua infância

E iluminando sua insignificância.

Nos próximos anos viveria uma vida nômade,

Onde o tempo correria como correnteza de rio

Trazendo e levando embora coisas e pessoas que nunca queria ter perdido.

Um cajueiro, um tapume sustentando um trilho da Fepasa,

Um bairro com um nome que refletia o estado de espírito na manhã de um ébrio

Um estelionato escolar, uma lagoa, estórias de uma serpente,

Uma caixa de recortes antigos de celebridades do rádio e tv,

Um casebre de barro, onde ele achava ser feliz.

A praça da igreja, um filme religioso,

As mangueiras e as noites de fogueira no cortiço e um acidente.

Deus sempre foi na sua vida uma coisa tão vaga e distante que não acreditava em nada,

Somente nos próprios sentidos, instintos daquela adolescência disforme.

Não havia noção no que, por que ou em quem acreditar. 

O retorno para onde nasceram suas lembranças.

Vida nova, nova escola, novos amigos e coisas, combustíveis para novas sensações.

A descoberta da poesia e dos primeiros acordes.

Paixões e ilusões, de sonhos e decepções.

As unhas maternas deixaram cicatrizes na alma,

As surras do lar doeram mais que brigas de rua,

Mais que as reponsabilidades precoces.

A descoberta de si. O fim da inocência.

O primeiro cigarro, o primeiro copo, a primeira reação ao desmando,

A rebeldia e as drogas, os amigos e os amores, as alucinantes viagens da mente, 

A poesia e um violão agora fariam parte do seu cotidiano fútil.

Ele nunca mais seria o mesmo.

Ainda assim caminhou com suas dúvidas.

Espectros do passado se tornaram fantasmas e monstros

Que se escondem no porão de sua mente

E lhe assombram a luz do presente.

Mas o sol e um amor moreno de sorriso torto, venceram as sombras em sua vida.

A sua guerra ainda persiste.

Resquícios e sequelas ainda tentam controlar sua mente, corpo e coração.

O espelho, testemunha do tempo distorce às vezes sua realidade,

Mas sua mente entorpecida.

Diz que o fim não está perto,

Passou mais rápido que o ponteiro do seu relógio barato.

Agora para ele são só lembranças

Ora tristes, ora saudosas desses seus vívidos 50 anos

Menos 3 que lhe escaparam da memória

E tudo revivido em 5 minutos.

O que vem pela frente ele não sabe.

Vai passar incógnito como alguém comum,

Esperando que algum dia a vida lhe dê uma nova chance,

Um novo recomeço....