Leh Rodrigues

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Diego e Ana - Hudson Alexandre



 



Na escola, da amizade
Sempre nasce uma flor
Entre livros e amigos
A cumplicidade tem
A idade do amor

Quem sabe quanto tempo
Leva para crescer?
É um segredo que se abre
Ao longo dos anos
Sem enganos no sofrer

Mais que amor platônico
Bem mais que simples sonho
Sem medo, puro e sem pecado

Razão reclama
O amor não engana
Paixão que chama
Diego e Ana

O encontro duas vidas
E uma busca espiritual
Entre risos e olhares
Tão inocentes
Há sementes de um grande amor

Quem sabe quanto tempo
Se pode durar?
Há um segredo que se abre
Ao longo dos anos
E cada ano irá eternizar

Maior que a primavera
Bem maior que a longa espera
Diego, o amor e Ana



sábado, 20 de maio de 2017

Só Uma Rua Num Dia de Chuva - Hudson Alexandre



                         


A chuva fina cai calma e contínua
Uma mulher velha anda de cabeça baixa
Na mão a sacola de compra
Com o peso de sua angústia
Anda no meio da rua
Dona do seu lugar.

Vem um bêbado
Tropeçando no meio-fio
Equilibrando-se
Na fragilidade das trêmulas pernas
Come seu pão molhado
E enrugado com ar de miséria.

Dentro do carro o pára-brisa
Está embaçado
Mesmo assim
Tenho uma visão clara desse mundo
Do qual não pertenço.

No rádio um som de protesto
Uma voz negra
Enche meus ouvidos
E cala no coração.
Lá fora o tempo é frio
O peito queima, há um calor nos olhos
O suor corre pelo meu corpo
Num contraste estranho.

Um sábado no meio
No bar há um homem vazio, 
Com seu copo cheio,
À espera da mulher vaidosa
De uma hora vaidosa no cabeleireiro.

Morre primeiro o pensamento
Renasce uma palavra
Retorna a visão daquela rua
Que se movimenta diante
Dos meus olhos ardentes.

Agora, moças deselegantes
Passam sem parar
Contando suas vantagens juvenis
Embaixo do guarda-chuva
Como se isso
Fosse tudo o que há na vida.

Os carros passam 
Num silêncio mórbido
Pelas ruas incertas
Dessa pequena cidade incerta
Sem se preocupar
Com a passagem do tempo
Sem pensar na hora certa.

O pai traz sua filhinha no colo
Protegida pelos seus braços cansados
Como se ali o amanhã
Estivesse garantido
Como se a chuva
Não molhasse sua esperança

Um olhar embriagado
Fita-me de dentro do bar
Como se questionasse
A minha existência naquele lugar.
Minha própria imagem no retrovisor
Questiona minha existência
Em qualquer lugar.

As casas dessa rua
Não são imóveis;
Deterioram-se em seu ambiente
Na passagem lenta do tempo;
Uma falsa sensação de segurança
Ocupa seus cômodos,
Pois em algum lugar
Todo dia cai uma fortaleza.
É uma chuva fina, calma, mas contínua

A espera é longa
A vaidade é complexa
A mente é complexa e viaja,
Pelas dimensões dessa rua estreita,
Encharcada com as lágrimas do céu,
Desse povo brejeiro, que se alimenta,
De um cigarro,
E um copo de cerveja gelada.

Uma mulher trás consigo uma criança,
Vem resgatar o seu amor do fogo,
Perdido no bar,
Entre brumas tóxicas.
Então outra canção,  
Invade os meus ouvidos,
A boa e velha canção rock n’ roll
Estranha nesse reduto
De música caipira.

Os carros silenciosos não param
Como se o dia não tivesse fim,
Pessoas, guarda-chuvas, vão e vem,
Como se a chuva não terminasse nunca
Como se a vida não tivesse fim
Como se espera não fosse tão ruim.

Uma criança atravessa a rua correndo,
Em direção ao bar;
Um misto de medo e ansiedade
Como se o seu futuro,
Não fosse alcançado,
Correndo em busca do pai,
Que volta para o bar.
Vai perpetuar tal conduta
No gene de sua geração;
Um cigarro,
E um copo de cerveja gelada.

Na porta sua futura esposa,
Á espera de seu amor,
Dividido entre presente e passado;
No fundo do copo;
Morto o seu futuro.
Do corpo entorpecido,
Descarrega o resíduo de sua miséria
Em algum muro dessa rua
Já molhada.

Vai levar o cheiro,
Para sua cama,
E aquela que o ama vai chorar,
Como chora o céu sobre essa rua,
Uma chuva fina, calma, mas contínua.

Na vitrine de uma loja
A ilusão de um rosto bonito
Vendendo beleza
Um casal de namorado,
Andam abraçados
Na espera de um dia de sol
Como se a paixão
Não apagasse em tempo ruim.

Um ciclista passa despreocupado,
Como se não chovesse,
Como se a luz do sol
Fosse aparecer a qualquer momento.
Equilibra-se nas rodas da modéstia,
Debaixo dessa rua molhada
Encharcada pela pretensão
Do meu olhar.

A porta do carro se abre
Um rosto vaidoso
Num cabelo de luz,
Ilumina o interior;
Dou partida e sigo,
Entre os carros silenciosos,
Deixando tudo para trás:
A cidade, aquela gente brejeira.
Era só uma rua,
Num dia de chuva, fina, calma, mas contínua....















Luz - Hudson Alexandre

terça-feira, 2 de maio de 2017

Um Mundo Normal - Hudson Alexandre



                                        


O mundo anda tão normal
Covil de chacal
Inimigo da paz
Desafiou os mistérios do céu
Agora réu seria
Na ilha da agonia

Alimentou o cult underground
Não é tão mal
A falsa liberdade
Caiu já no primeiro round
Com a cara no chão
Na lama da imoralidade

Quer provar o quê
Com suas experiências?
Não tem ciência sua religião
Por que anda na contra cultura
Por quê ser tão linha dura
Com nosso coração?

Suas guerras, suas paixões
Seus aviões, seu nariz empinado
Seus povos, campos da vergonha
Marcas de coronha e
Bancos esfomeados

Seus cromossomos
Não determinam
Como somos no íntimo
Fragmentos de átomos
Em qualquer canto
Nesse universo ínfimo

O mundo anda tão normal
E sem background
Para seguir seu curso
Com os próprios pés
Anda em viés
Como uma agulha
Na veia de um viciado
Sem fé

A moda de suas meninas
Sorrisos e umbigos
E um tolo ambíguo
Em cada esquina
Um disparo do cano frio
Sob a luz do farol
Como se o sol
Perfurasse o coração
De uma vítima

O mundo anda tão normal
Há excesso de sal
Na mídia amoral
Um café na padaria
Quanto me daria
Por uma vida?
Um carro retorcido
Marcas em relevo
Num corpo perdido

Sua cabeça cheia
De ódio e de ópio
Heroína sem façanha
Que barganha
Teu lixo na entranha
Da estranha sociedade
Do terceiro mundo

Tantos feitos
E tantos despeitos
Nesse peito vazio
Nas águas podres
Do seu rio
De interesses escusos
Que de tão absurdos
Torna-te nas páginas de jornal
Apenas um mundo normal







Um Tom Acima - Hudson Alexandre





Ele flertava com a morte
Tão imortal se sentia
Amiga que amarga a sorte
Num anormal senso de euforia  

Ele cantava a vida
Um tom acima
Beijava-a com ternura
Como se fosse uma menina

Um tom desigual
Desafinado em desalinho
Sonhava por becos escuros
Perdido no próprio caminho

Chora noites de chuva
Em dias de seca
A jornada nunca é suave
Não é pego de surpresa

Sempre levou a vida
Como menino
Que sonha sempre acordado
Enquanto não vem o domingo

Está sempre cantando
Acordado, mas sempre sonhando
Com um novo dia
Que nunca vem